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Thursday, November 01, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 21 - Um por Todos, Todos por um!


Comandante Guélas

Série Colégio Militar




A porta do gabinete do professor de português, o Tic-Tac, só cedeu, após muita insistência do À Nora (4), porque o molho de chaves, uma das relíquias mais importantes do Colégio Militar, que abria todas as fechaduras que lhe aparecessem pela frente, estava agora nas mãos do Chula (263), e por não ostentar etiquetas, obrigava sempre o seu portador à tentativa e erro. A sobrevivência de muitos dependia desta ação, por isso os operacionais entraram com cuidado, e deixaram uma janela com o trinco aberto, para mais tarde fazerem uma visita de cortesia, altura em que os testes, contados, já estariam em cima do armário. O Mathos (324) ainda estava um pouco dorido da porrada que o Carioca lhe dera durante o ensaio, porque o apanhara a deturpar o Hino Nacional, e tudo por causa da língua que se encravara na glote:
- “…entre as brumas da mimória”!
No regresso cruzaram-se com um dos manos Tavares, o de bigode, óculos e cabelo branco, que dava E.V.T., que respondeu à continência dos adolescentes com um sorriso e uma pergunta:
- Então, de onde vêm estes caroços de nêsperas?
- Fomos fazer pela vida, como costuma aconselhar-nos o stor Baco… Oliveira - exclamou o Pencas.
Em 1986 já não houve as facilidades do ano de 1974, quando o Gordini (601) conseguiu convencer, já no último momento, o professor de matemática, que vinha sempre com um grão na asa para as aulas da tarde e por isso distribuía bordoada com o ponteiro a quem falasse ou se mexesse, a dar-lhe a nota, e tudo isto graças a uma chamada oral em que conseguiu construir na perfeição um soberbo gráfico de eixos cartesianos. Uns dias depois todos comemoravam o sucesso educativo coletivo, desde os com zero até aos de vinte, pois as passagens tinham sido administrativas, logo universais. Nestes tempos de liberdade total, cada um tinha direito a ter o seu gráfico cartesiano personalizado, por isso o do Peidão (191) ostentava orgulhosamente um “x” na coordenada vertical, e um estranho “y” com duas rodas na coordenada horizontal, e caso o Bêbado…perdão, o professor de matemática, tentasse corrigir o erro com o ponteiro, arriscava-se a ser classificado como “fascista”, e isso não era muito conveniente naquela altura para as folhas de serviço. Assim, a geração de oitenta tinha de “fazer pela vida”, como muito bem respondera o 354 ao professor Alcatrão! 
Após a última cornetada da noite, altura em que o oficial de dia já estava mais para lá do que para cá, o pátio das osgas, local de acesso à janela destrancada do gabinete do Tic-Tac, recebeu a visita dos cinco da Luz, não sem antes passarem pelos claustros, cuja porta estava trancada. Mas a sorte acompanhava sempre os Meninos da Luz: o soldado de serviço na portaria era amigo do Pencas, tinham-se conhecido na Feitoria. Abriu-lhes a porta e desejou-lhes boa sorte no estudo. Novo obstáculo, nova paragem. O acesso à janela necessitava de um acrobata e eles eram todos do 4º grupo de ginástica:
- Temos de ir acordar o À Nora! – Sugeriu o Chula (263).
- Borra ideirra, - reforçou o Mathos (324), mostrando que desta vez  a língua enrolara-se nas cordas vocais.
 O 4 estava em sono profundo, a igreja da Luz tinha dado uma badalada, sonhava com a mítica Rosa, uma outra relíquia daquele espaço militar, que ele nunca vira, mas que sabia que havia mexido com as cuecas de muitas gerações, até ao dia em que um grupo de pessoal do 7º ano, durante a época de estudos para os exames nacionais, a emboscara lá para os lados da piscina, dando início a um processo que fez saltar muitas estrelas e inscrições. O À Nora imaginava-a agora a fazer-lhe uma visita personalizada, sentindo a cama a abanar e um cheiro a alho. Cheiro a alho????
- Acorda, precisamos dum macaco, - gritou o Pencas (354) abanando-o furiosamente.
Sentiu-se uma leve tensão no ar, enquanto o À Nora trepou pelo emaranhado de vigas de aço. Aliás, foram trepadores como ele, que se desafiavam uns aos outros a chegar primeiro às aulas sem usarem as escadas, que deram o nome ao páteo. Num abrir e fechar de olhos entrou pela janela e escancarou a porta do gabinete do professor de Língua Pátria. Os testes estavam em cima do armário, dentro de um envelope selado com fita-cola e a assinatura do Tic-Tac por cima. E agora? Nova reunião, e outra decisão: aqueceram água dentro da caixa de costura tirada ao Banheira (388), usando isqueiros. O vapor de água revelou-se um bom aliado. O teste foi rapidamente copiado, e tudo ficou como estava. Passou de imediato para o “Concílio dos Deuses”, o pessoal das notas máximas e das fardas carregadas de medalhas. Foi depois entregue a todos os interessados, que tiveram de decidir qual a nota que mais lhes convinha, sem darem nas vistas. A pedagogia de seca do Tic-Tac revelou-se um sucesso educativo, todas as notas subiram, incluindo as negas que, por estranho que pareça, ainda as houve. Uma semana antes do teste seguinte os cinco reuniram-se e planearam uma nova acção, que começaria como a anterior, com o trinco da janela destravado, e o À Nora com a função de símio.
- A chavrrrre nim roda, - gritou o Mathos (324), que estava desde manhã com a língua encravada entre as amígdalas.
A fechadura tinha sido mudada! Mas os Cinco da Luz estiveram imparáveis durante os dois anos que lhes restavam, passando a entrar no gabinete do professor de Português pelo teto. Trepavam pelas casas de banho do terceiro ano, percorriam todo o sótão dos claustros, e desciam nos aposentos do Tic-Tac com uma corda, depois de abrirem o alçapão. Quanto à porta dos claustros, passou a ser aberta com um frasco de shampoo cortado ao meio. E um dia registaram a acção, digna de um 007, num filme em VHS que ainda hoje conservam com muito carinho.



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